quinta-feira, 19 de março de 2026

Karl Marx e Freud explicam: O Cristianismo é uma muleta para os fracos!

 


📖 TEXTO BASE


Romanos 1:18-25

"A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça. Porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelos desejos de seus próprios corações, para desonrarem o seu corpo entre si; pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!"


🎯 INTRODUÇÃO

Você já ouviu frases como estas?

✧ "A religião é o ópio do povo." — Karl Marx
✧ "A religião foi inventada para domar as forças ameaçadoras da natureza." — Sigmund Freud

Essas críticas partem do mesmo pressuposto: a fé cristã não passa de um apoio psicológico para pessoas fracas, que não conseguem enfrentar a vida sozinhas.

Mas será que essa acusação procede? E mais: será que o ateísmo também não pode ser analisado sob a mesma ótica?

No capítulo 4 de Razão Para Crer, R.C. Sproul nos ajuda a responder essa objeção de forma bíblica e equilibrada.


🔍 1. O QUE FREUD E MARX DISSERAM?

Sigmund Freud (neuropsiquiatra austríaco)

Para Freud, o homem inventou Deus por medo das forças da natureza. Terremotos, tempestades, doenças e a morte são ameaças que não podemos controlar. Então, o ser humano personalizou essas forças – criou espíritos e deuses com quem pudesse negociar, barganhar, apaziguar. A religião seria, assim, uma tentativa de "domar" o que nos amedronta.

Karl Marx (filósofo alemão)

Para Marx, a religião foi inventada pelas classes dominantes para controlar os pobres. Enquanto os ricos desfrutam dos prazeres desta vida, a religião promete aos oprimidos uma recompensa futura no céu – "ópio" que os mantém conformados e impedidos de se rebelar contra a exploração.

O que ambas as teorias têm em comum?

Ambas partem do pressuposto de que Deus não existe. A pergunta deles é: "Se não há Deus, por que existe religião?" E respondem: porque o homem inventou Deus para suprir suas necessidades emocionais.

Sproul reconhece que há verdade parcial nessas críticas:

  • O ser humano tem imaginação criativa

  • A religião oferece consolo real

  • A fé pode sim ser usada para exploração

Porém, o problema é que provar motivo não é o mesmo que provar culpa. Num tribunal, mostrar que alguém tinha motivo para cometer um crime não prova que ele o cometeu. É preciso apresentar evidências.


📖 2. A RESPOSTA BÍBLICA: ROMANOS 1

Sproul oferece uma contra-ofensiva: se o crente pode ter motivações emocionais para crer, o ateu também pode ter motivações emocionais para não crer.

Paulo explica isso em Romanos 1.

A revelação geral (vv. 19-20)

"Porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas."

Quatro verdades fundamentais:

  1. É clara – "manifesto", "claramente se reconhecem"

  2. É universal – "desde o princípio do mundo", para todos

  3. É percebida – "sendo percebidos" – atinge seu alvo

  4. Torna o homem indesculpável – ninguém pode alegar ignorância

A supressão da verdade (v. 18)

"Homens que detêm a verdade pela injustiça."

A palavra grega é katechein – traduzida como "deter", "reprimir", "suprimir" ou "repelir". Sproul cita J.H. Bavinck:

"Escolhemos deliberadamente o termo 'repressão'... O homem sempre reprime naturalmente a verdade de Deus por ser contrária ao seu estilo de vida."

O problema não é falta de conhecimento, mas rejeição deliberada. O homem conhece a Deus, mas não quer viver sob Seu senhorio. Então, reprime esse conhecimento e foge dEle.

A troca (vv. 22-23, 25)

"Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível... pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador."

A idolatria não é uma tentativa sincera de buscar a Deus – é uma fuga deliberada. O homem não quer adorar o Deus santo que faz exigências; então cria deuses à sua imagem, deuses que não ameaçam seu estilo de vida.

Pergunta para reflexão:
*"Se Romanos 1 está correto, então a religiosidade humana (idolatria) NÃO é uma tentativa de encontrar Deus, mas sim de ESCAPAR dele. Isso muda sua perspectiva sobre as religiões não-cristãs? Como?"*

Resposta: Muda completamente. As religiões não são "pontes" para Deus – são barreiras. O pagão não é inocente que busca; é culpado que foge. E a missão da igreja não é "ajudar as pessoas a encontrar Deus", mas proclamar o Deus que já as encontrou em Cristo.


🔥 3. POR QUE TEMEMOS A DEUS?

Se todos os homens conhecem a Deus, por que fogem dele? Sproul lista cinco atributos divinos que nos ameaçam:

AtributoPor que ameaça?Ilustração Bíblica
SantidadeRevela nossa impureza e nos desintegraIsaías 6:1-5 – "Ai de mim! Estou perdido!"
OnisciênciaNão podemos esconder nada; nossa nudez moral está expostaSalmo 139 – "De longe penetras meus pensamentos"
SoberaniaNão somos livres para fazer o que queremos; há lei absolutaGênesis 3 – "Sereis como Deus" (a tentação original)
OnipotênciaPoder absoluto que não pode ser desafiadoJó 38 – "Onde estavas quando lancei os fundamentos?"
ImutabilidadeDeus não muda – se estamos em conflito com Ele, nós é que teremos que mudarMalaquias 3:6 – "Eu, o Senhor, não mudo"

Estudo de Caso 1: Isaías 6:1-5

"No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor... Então disse: ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros."

A visão da santidade de Deus não trouxe conforto imediato a Isaías – trouxe desintegração. Ele se viu como realmente era. O mesmo ocorre conosco: preferimos um deus domesticado, que não nos confronte.

Estudo de Caso 2: Marcos 4:35-41

Jesus acalma a tempestade. Os discípulos estavam com medo da tempestade. Mas depois que ela cessou, ficaram com ainda mais medo:

"Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?"

Sproul comenta: "O não-santo pessoal (natureza) é menos ameaçador que o SANTO pessoal." Eles perceberam que estavam diante de alguém que estava em uma categoria completamente diferente – a categoria do Santo.


⚖️ 4. PRECONCEITO DOS DOIS LADOS

Sproul conclui com uma observação importante:

"O cristão mais piedoso já pode ter permitido que seus preconceitos abrandassem sua perspectiva de Deus. Vamos tratar com o Deus bíblico nos termos em que Ele é apresentado na Bíblia. Se nós O remodelarmos e 'O criarmos à nossa própria imagem', teremos obscurecido Sua verdadeira identidade. A verdade jamais pode ser determinada por aquilo que desejamos que seja."

Ou seja:

  • Crentes podem ter motivações emocionais para crer

  • Ateus podem ter motivações emocionais para não crer

A questão não é "quem tem motivações", mas "o que é verdadeiro".


✅ PONTOS-CHAVE PARA GUARDAR

  1. Todos necessitamos de apoio. Num certo sentido, o cristianismo é uma muleta – porque todos somos aleijados pelo pecado.

  2. Necessidades psicológicas podem levar à crença em Deus – Freud e Marx estão certos nisso.

  3. Necessidades psicológicas também podem levar à negação de Deus – Paulo mostra isso em Romanos 1.

  4. O Deus bíblico é mais ameaçador que a própria natureza. Seus atributos nos confrontam e nos levam a fugir dEle.

  5. A verdade do cristianismo não pode ser determinada pela psicologia. O estudo das necessidades humanas nos ensina muito sobre nós mesmos, mas nada sobre se Deus existe ou não.


🙏 APLICAÇÃO PESSOAL

Antes de encerrar, pergunte-se:

  1. Em quais áreas da minha vida eu tenho reprimido a verdade sobre Deus porque ela me ameaça?

  2. Qual dos cinco atributos (santidade, onisciência, soberania, onipotência, imutabilidade) mais me desafia? Por quê?

  3. Será que eu tenho domesticado Deus, criando uma imagem dEle que não me confronta?

  4. O que significa, na prática, deixar de fugir de Deus e me render a Ele?


📚 TEXTOS PARA APROFUNDAMENTO

TemaTextos
A santidade de DeusIsaías 6; Apocalipse 4
A onisciência de Deus
Salmo 139; Hebreus 4:13
A soberania de DeusRomanos 9; Daniel 4:34-35
A onipotência de DeusJó 38-42; Efésios 1:19-21

A imutabilidade de Deus
Malaquias 3:6; Tiago 1:17

🙏 ORAÇÃO

Senhor Deus, santo e justo, reconhecemos que muitas vezes tentamos fugir da Tua presença ou criar um deus mais cômodo aos nossos desejos. Perdoa-nos por reprimirmos a verdade que Tu já revelaste. Ajuda-nos a não ter medo de Te conhecer como Tu realmente és. Dá-nos coragem para nos render à Tua soberania e graça para confiar em Ti, mesmo quando Tua grandeza nos assusta. Em nome de Jesus, amém.


Soli Deo Gloria!



terça-feira, 2 de abril de 2024

A Experiência da Paternidade - Por Samuel C Santos

 Do que são feitas as suas memórias?

As minhas memórias são feitas de histórias, muitas histórias. 

Hoje, vivo a experiência mais completa como homem de Deus: a paternidade. É sensacional acompanhar cada detalhe, cada segundo de tudo o que estou vivendo agora. Em alguns desses momentos, me encontrei em silêncio, apenas olhando para o meu filho nos meus braços e logo me veio ao pensamento Deus. "Em paz me deito e logo pego no sono, porque, Senhor, só tu me fazes repousar seguro." (Salmos 4:8). Nos meus braços, meu filho está seguro, ele se acalma, descansa e dorme tranquilo.

Deus tem trabalhado comigo em cada etapa da minha vida. Alguns dias atrás, uma senhora da igreja comprou o meu livro “Planos Humanos, Respostas Celestiais”. É um livro de memórias e poesias que escrevi. No domingo seguinte, ela veio falar comigo sobre uma poesia que a ajudou a entender uma passagem bíblica. Ao perguntar o que mais ela gostou do livro, ela respondeu que foi a minha autobiografia e como sou uma pessoa dinâmica, cheia de histórias de vida. Agora, vivo mais um capítulo inédito dessa história: a paternidade. Que privilégio Deus está me proporcionando.

As minhas memórias são feitas de histórias, muitas histórias. 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Milagres NÃO Acontecem

“Você é retardada mesmo, como não perceber que tinha uma criança aí esse tempo todo!”

Cunhado da Zauri, pai de 3 filhas e avô.


No mundo de hoje, as pessoas já não acreditam mais em milagres.

O sonho da maternidade é algo que toda mulher espera após o casamento, principalmente quando ela é cristã, uma mulher de oração e fé e que frequenta e atua nos ministérios da igreja. Há alguns anos, esse foi o nosso sonho, e nos planejamos para ter o nosso bebê.

Muitas vezes, ela pensou que estava grávida e fez os exames de rotina, mas os resultados sempre foram negativos.

Porém, à medida que o tempo passava e ela não engravidava, resolvemos investigar, indo ao médico. Depois de muitos exames, o médico passou algumas orientações. Os anos se passaram e nada da gravidez acontecer, além de outros problemas que causavam dores, pelos quais ela teve que procurar outros médicos especialistas para tratar: dores de cabeça, vertigem e problemas de estômago.

Depois de anos de tratamento, seu médico disse que era impossível engravidar. Ela chorou muito e, nesse período, mudamos de cidade por causa do meu trabalho. Sintomas de depressão começaram a afetar seu dia a dia. Ela não estava bem, mas nós temos um Deus que nos fortalece.

Agora, morando em outra cidade, ela pesquisou outros médicos que pudessem resgatar sua esperança de ter um bebê, oramos para isso, e aí começa mais uma jornada de anos de tratamento e exames para tentar engravidar, mas as dores continuavam, e lá íamos nós para mais tratamentos.

Enfim, foram muitos anos de dores, exames e mais exames, nos quais eu também tive que fazer alguns para investigar se o problema era comigo, e mais uma vez o diagnóstico final da médica: "se for um sonho e desejo de vocês terem um filho, aconselho a adoção e eu posso ajudar vocês, pois a fila de adoção demora um pouco". Ela tem endometriose, mioma e outros termos técnicos que os exames médicos confirmaram a impossibilidade da gravidez.

Depois dos resultados, ela começou um tratamento para eliminar suas dores constantes e regular algumas alterações que os exames mostraram. Os meses foram passando e já estávamos conformados de que Deus teria outros propósitos para as nossas vidas; descansamos em Deus. De repente, ela começou a sentir enjoos e como estava tomando muitos remédios, falei que poderia ser alguma reação e ela procurou orientação médica. Passou mais um período e começou a ficar com o pé inchado, e eu falei para ela que deveria ser o tratamento com os remédios, e lá íamos nós ao médico. Depois, começou a barriga a inchar, e ela começou a falar que teve um irmão que morreu de câncer no estômago e também ficou preocupada com o mioma, e fomos falar com a sua médica. A médica já não sabia mais o que fazer, imagina eu em casa com ela? Aí a barriga dá mais uma crescidinha diferente, e eu tiro uma foto e ela envia para a médica que pede um ultrassom frontal (tem um nome específico que eu não sei, rs). Quando ela entrou para fazer esse ultrassom com outra médica para verificar qual era o problema, eu fiquei lá fora orando a Deus. Quando ela saiu, meu Deus.... gratidão. Ela não falou nada, mas o seu olhar feliz disse tudo. 

Somente ela, eu e Deus sabemos o que passamos. O resto da história você já sabe, Zauri está grávida de 7 meses.

MILAGRES ACONTECEM!


terça-feira, 8 de agosto de 2023

Escatologia Reformada - Por Samuel C Santos

 

A Segunda Vinda de Cristo

Milênio: Literal ou Simbólico? Uma Análise da Escatologia Reformada

Por Samuel Carvalho dos Santos


Escatologia é o nome para o estudo das últimas coisas, incluindo a segunda vinda de Cristo, o juízo final, a ressurreição dos mortos, o destino eterno dos salvos e dos perdidos.

Quando se fala sobre o milênio entende-se que o reinado milenar de Cristo é um conceito teológico que se baseia na crença de que Jesus Cristo governará o mundo por mil anos antes do fim dos tempos, mas será que o reino milenar de Cristo será literal ou simbólico? Acontecerá no céu, ou será na terra? Quem participará do reinado milenar de Cristo? Como o conceito do reinado milenar de Cristo se relaciona com a escatologia cristã? Enfim, perguntas como estas estão todas relacionadas ao milênio.

Poucos textos nas Escrituras trazem tamanha divergência na interpretação como o de Apocalipse 20.1-6.

Sempre é necessário se fazer um estudo do texto, e numa análise mais atenciosa perceberá que há muito que se explorar na passagem.

Creio que Milênio literal traz mais complicações do que soluções.

Defendo a posição de Martyn Lloyd-Jones:

“Sugiro-lhes que é uma figura simbólica com o intuito de indicar a perfeita extensão de tempo, conhecida de Deus, e unicamente de Deus, entre a primeira e a segunda vindas. Não são mil anos literais, mas a totalidade do período enquanto Cristo está reinando até que seus inimigos sejam feitos estrado de seus pés e Ele regresse para o juízo final”[1]

A interpretação de Lloyd-Jones sugere que a figura do milênio não deve ser compreendida literalmente, mas sim como uma figura simbólica que representa a totalidade do tempo em que Cristo reina e governa sobre a terra.

O amilenista, que nós da teologia reformada acreditamos, pois é a visão coerente com a própria mensagem das Escrituras, argumenta que essa prisão de Satanás em Apocalipse 20:1-3 tem um propósito específico: “para assim impedi-lo de enganar as nações” (v. 3). Isso, então, é o que aconteceu quando Jesus veio e o evangelho começou a ser proclamado não simplesmente aos judeus, mas, após o Pentecoste, a todas as nações do mundo. De fato, a atividade missionária mundial da igreja e a presença da igreja na maioria das nações do mundo ou em todas elas mostra que o poder que Satanás tinha no Antigo Testamento de “enganar as nações” e mantê-las nas trevas acabou. Cristo vai retornar, haverá uma só ressurreição de crentes e descrentes, o juízo final acontecerá, e o novo céu e a nova terra serão estabelecidos. Então, entraremos imediatamente para o estado eterno, sem qualquer milênio futuro.

A Escatologia Reformada amilenista ensina que Cristo já está reinando na terra através da sua igreja e que não haverá um período literal de mil anos antes do seu retorno e do julgamento final.

Portanto, o "milênio" é um período simbólico que começou com a primeira vinda de Cristo e se estenderá até sua segunda vinda, durante o qual Cristo está reinando espiritualmente em seus eleitos através da igreja.



[1] Charles R. Erdman. Apocalipse. Casa Editora Presbiteriana. São Paulo, SP. 1960: p. 8

quarta-feira, 19 de julho de 2023

Um Olhar sobre ESTUPRO, VIOLÊNCIA SEXUAL E FEMINICÍDIO NA BÍBLIA por Samuel C Santos

A Bíblia contém uma história forte de um assassinato, através de estupro, de forma lenta e muito dolorosa.  Ela é abusada sexualmente durante a noite toda pelos agressores e no dia seguinte é deixada na porta da sua casa, para o marido. 

ESTUPRO, VIOLÊNCIA SEXUAL E FEMINICÍDIO NA BÍBLIA

Por Samuel Carvalho dos Santos

História de Feminicídio na Bíblia:

A violência contra as mulheres é uma triste realidade persistente no mundo moderno, deixando cicatrizes profundas na sociedade. Entretanto, é fundamental reconhecer que essa problemática não é exclusiva da atualidade; vestígios dessa triste história também são encontrados na Bíblia, revelando narrativas dolorosas de mulheres que enfrentaram violência, opressão e até mesmo tragédias fatais. É necessário enfrentar esse legado histórico com coragem, a fim de promover uma mudança significativa e construir uma sociedade onde todas as mulheres sejam tratadas com dignidade e respeito.

No livro de Gênesis encontramos a história da criação do ser humano. Homem e mulher foram criados a semelhança de Deus, portanto com valores e direitos iguais. Gênesis 1:27: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” O texto aqui está bem claro, ambos os sexos foram criados iguais, sem nenhuma distinção, dignos de todo o respeito. Os princípios e ensinamentos bíblicos não mudaram.

Encontramos no Velho Testamento algumas mulheres com histórias marcantes de poder, liderança, conquista, enfim, mulheres que influenciaram a sociedade na sua época como Débora, uma juíza que foi uma líder em Israel numa batalha e era conhecida por ser sábia e corajosa (Juízes 4-5); Rute, uma viúva moabita que não deixou sua sogra, que era judia, e com isso se tornou uma antecessora do Rei Davi (Rute 1-4) e Ester, uma rainha muito respeitada e admirada pelo seu povo devido seus atos de fé e coragem (Ester 1-10). Enfim, essa são apenas algumas das mulheres bíblicas que influenciaram positivamente seu povo e marcaram gerações inteiras.

Também encontramos na Bíblia histórias de mulheres marcadas por abusos sexuais, opressão e violência como o estupro de Diná, encontrado em Gênesis 34:2 “Viu-a Siquém, filho do heveu Hamor, que era príncipe daquela terra, e, tomando-a, a possuiu e assim a humilhou” e os abusos que Tamar sofreu, encontrado em 2 Samuel 13:14 “Porém ele não quis dar ouvidos ao que ela lhe dizia; antes, sendo mais forte do que ela, forçou-a e se deitou com ela”.

No feminicídio encontra-se o nível mais alto de desigualdade, injustiça e violência com uma mulher. No próximo tópico será relatado o feminicídio bíblico ocorrido no capitulo 19 de Juízes, na Bíblia, que é um forte relato de um assassinato, através do estupro, de forma lenta e muito dolorosa.  Ela é abandonada pelo marido que entrega aos agressores e eles abusam dela durante a noite toda e no dia seguinte ela é deixada na porta da sua casa e o marido corta o corpo dela em vários pedaços.

O Capítulo 19 de Juízes: Uma História de Violência e Impunidade

As histórias bíblicas são contadas de uma forma encantadora e cativante para atrair a atenção dos leitores. Essas histórias não são apenas para trazer uma comunicação sem propósito, mas para ensinar e transmitir ensinamentos profundos sobre a vida, seus desafios e injustiças e como Deus age em cada situação.

Por meio de suas narrativas ricas e personagens envolventes, a Bíblia oferece insights valiosos sobre a natureza humana, a importância da fé e a busca por justiça e redenção. Ao ler essas histórias, somos convidados a refletir sobre nossa própria jornada e encontrar inspiração para enfrentar nossos dilemas pessoais.

Além disso, as narrativas bíblicas não são estáticas; elas permanecem relevantes ao longo do tempo, adaptando-se às diferentes culturas e contextos, e continuam a moldar a maneira como vemos o mundo e nos relacionamos com Deus.

Nos últimos capítulos de Juízes é apresentado um período de decadência moral e social do povo de Deus, conforme descrito abaixo:

Os cinco últimos capítulos de Juízes retratam uma época de anarquia geral e falta de leis. Eles narram dois acontecimentos horríveis que ilustram um dos períodos mais sombrios da história nacional de Israel: Mica e a migração de Dã (17,18) e o estupro da concubina do levita e as subsequentes guerras entre as tribos (19,21). Nesse trecho, lemos sobre idolatria, conspiração, violência sem sentido e degeneração sexual (ARNOLD; BEYER, 2011, p. 184).

Em Juízes 19:1-4 é apresentado este cenário: “Naqueles dias, em que não havia rei em Israel...” e anteriormente, em Juízes 17:6 diz: “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada qual fazia o que achava mais reto”, essa é uma expressão que deixa claro como é viver em algum lugar ou período que não existem leis e regras no qual domina a desorganização e o caos.

Um levita e a violência em Israel. A situação de Israel havia se deteriorado a tal ponto que alguns do povo de Deus se comportavam de maneira semelhante aos antigos habitantes das cidades condenadas de Sodoma e Gomorra. O resultado foi uma guerra civil entre as tribos. A história sórdida que encerra o livro de Juízes deixa claro que a desobediência de Israel à aliança com o Senhor era decorrente da falta de um rei fiel à aliança. A ênfase sobre o ato do levita de cortar sua concubina em doze partes a fim de convocar Israel (um paralelo claro com o ato de Saul em 1 Sm 11:6-8) teve uma repercussão negativa tanto para Benjamim quanto para Saul (GENEBRA, 1999).

O texto de Juízes 19:1-4 relata a história de uma concubina[1] que fica chateada com o seu marido, um levita, e decide voltar para a casa de seu pai, onde permanece por quatro meses. O motivo exato da raiva da esposa não é esclarecido no texto, apesar dela ser uma concubina e o levita ter uma posição elevada na sociedade, exercendo certa autoridade sobre ela. A demora de quatro meses por parte do levita para procurá-la também não é explicada, o que torna difícil compreender suas ações e motivações nessa narrativa.

Agora, em Juízes 19:5-15, o levita encontra-se em viagem com a sua concubina e um dos seus servos. A concubina sempre fica de lado na história, ou seja, a ênfase no texto agora é o servo do levita, que por sua vez é chamado no texto de “seu senhor”. O servo comenta sobre passar a noite numa cidade de estrangeiros, mas o seu senhor não aceita, pois é uma cultura que não pertence ao povo de Israel. Como levita ele tem conhecimento da Lei do Senhor, contida no texto: “Como o natural, será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o Senhor, vosso Deus” Levítico 19:34. Portanto, ele deveria amar aquele povo, mas ele despreza a Lei do Senhor e toma sua própria decisão.  Aqui já se percebe que o levita entra em contradição com o que é certo, conforme a Lei do Senhor, demonstrando o seu afastamento de tais princípios.

Em Juízes 19:16-21 percebe-se que até o momento a mulher não era citada e mesmo ela sendo o centro da história, não é dada nenhuma ênfase nesse ponto. A mulher aqui realmente não é importante e lá em Juízes 19:2 diz “aborrecendo-se dele, o deixou...” e conforme citado na Bíblia de Estudo Genebra ou “ela foi infiel a ele”. A lei exigia que os adúlteros fossem apedrejados: “Se um homem for achado deitado com uma mulher que tem marido, então, ambos morrerão, o homem que se deitou com a mulher e a mulher; assim, eliminarás o mal de Israel” Deuteronômio 22:22. No entanto, “cada qual fazia o que achava mais reto” Juízes 17:6; 21:25).  Outro ponto de destaque está na sua fala: “...ninguém há que me recolha em casa”, mostrando que os outros dois, a concubina e seu servo, são insignificantes e mais uma vez o levita levanta indícios da sua atitude negativa como um homem de Deus.

Na parte final, em Juízes 19:22-30, Phyllis Trible, uma estudiosa sobre assuntos feministas diz que a concubina, que abandonou seu marido e foi para casa de seu pai, foi alvo de uma violência ao extremo. Esse abandono é levado a uma vingança do seu marido. Ela interpreta que ao abandonar seu marido ela desafia sua autoridade como o seu senhor. Ela era submissa e ao abandonar seu marido se torna alguém que busca justiça e acaba desafiando seu marido (BACHMANN, 2017).

O texto bíblico não esclarece se a concubina estava viva ou morta, mas mesmo assim seu corpo foi cortado em doze pedaços. O levita, em sua atitude, pareceu transferir a culpa para a sociedade, destacando a propensão humana para justificar seus erros e atos malignos.

Reflexões e Desafios

        Como foi possível escrever uma história tão cruel nas Escrituras do Antigo Testamento? Não é comum encontrarmos histórias assim na Bíblia, porém tais histórias enfatizam lições teológicas para a vida real mostrando como a humanidade necessita de redenção. É uma história forte e difícil de aceitar, mas é a realidade de um mundo caído no qual vivemos.

Quando estudamos os textos bíblicos precisamos refletir sobre os desafios da sociedade atual e buscar respostas para promover a igualdade entre as pessoas, o respeito e a segurança para as mulheres. Importante entendermos que como em qualquer texto bíblico as interpretações variam e por isso é necessário uma abordagem mais profunda e crítica para lidar com cada situação.

Mesmo que a Bíblia descreva fatos horríveis de feminicídio é preciso entender que a mensagem bíblica do cristianismo é amor, compaixão e justiça. Jesus Cristo deixou o exemplo com relação ao tratamento para as mulheres quando esteve no seu ministério terreno valorizando cada uma delas, restaurando vidas e trazendo a dignidade, até mesmo desafiando as culturas e normas daquela época. O Evangelho promove paz, transformação, vida e respeito para todas as pessoas.

Referências:

ARNOLD, Bill T.; BEYER, Bryan E. Descobrindo o Antigo Testamento. São Paulo. Cultura Cristã, 2001.

BACHMANN, Mercedes L. García. Mulheres no Livro dos Juízes. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana (RIBLA), v. 2, p. 105-121, 2017.

GENEBRA, Bíblia de Estudo. São Paulo e Barueri. Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

SILVA, Carla da. A desigualdade imposta pelos papéis de homem e mulher: uma possibilidade de construção da igualdade de gênero. Revista Direito em Foco, v. 5, p. 1-9, 2012.



[1] As concubinas eram companheiras reconhecidas, mas possuíam menos direitos legais do que as esposas (GENEBRA, Bíblia de Estudo. São Paulo e Barueri. Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.)


Karl Marx e Freud explicam: O Cristianismo é uma muleta para os fracos!

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